AML Consulting - Apreensões de dinheiro vivo: como é possível juntar tantas notas?

Apreensões de dinheiro vivo: como é possível juntar tantas notas?


Polícia Federal achou R$ 51 milhões em dinheiro vivo num apartamento usado por Geddel Vieira Lima. Especialista em prevenção à lavagem de dinheiro explica regras para transações bancárias.

A terceira etapa da Operação Cui Bono, que investiga a cobrança de propina em troca de liberação de empréstimos na Caixa Econômica Federal, foi às ruas na manhã de terça-feira (6). O alvo da Polícia Federal era um apartamento em Salvador supostamente usado pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima para guardar pertences do pai, que morreu em janeiro de 2016.


Os investigadores batizaram a ação de "Tesouro Perdido", mas não imaginavam o tamanho do tesouro. No imóvel que Geddel teria pedido emprestado a um amigo, o empresário Sílvio Antônio Cabral da Silveira, a Polícia federal fez a maior apreensão de dinheiro vivo da história do Brasil.


A maior parte do total estava em notas de R$ 100 e R$ 50, mas havia também uma parcela em dólares. Segundo a Polícia Federal, havia, em moeda americana, o equivalente a cerca de R$ 8,4 milhões.


Geddel Vieira Lima foi ministro do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, vice-presidente da Caixa no governo Dilma Rousseff e é aliado próximo do presidente Michel Temer, de quem foi ministro da Secretaria de Governo até novembro de 2016. Investigado, o peemedebista cumpria prisão domiciliar também em Salvador, a cerca de 5 km do local onde estava a montanha de dinheiro. Na sexta-feira (8), voltou para a cadeia em razão do dinheiro achado no aparatamento.


Quatro respostas sobre transações financeiras


Além da quantia, chamou atenção o volume de dinheiro apreendido no apartamento em Salvador. Eram sete caixas e nove malas repletas de dinheiro. Uma quantidade de notas como essa certamente não saiu de um saque comum feito em um caixa eletrônico.


Sem comentar especificamente o caso do dinheiro atribuído a Geddel, que ainda será investigado, o especialista em prevenção à lavagem de dinheiro da AML Consulting, Alexandre Botelho, falou com o Nexo sobre regras para transações financeiras no Brasil.


1. QUEM FISCALIZA 


O órgão responsável por monitorar e fiscalizar movimentações financeiras no Brasil é o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), vinculado ao ministério da Fazenda. Mas, segundo Botelho, o Coaf só registra saques acima de R$ 100 mil. O Banco Central, recentemente, anunciou a alteração do limite para R$ 50 mil. Mesmo assim, nem todas as operações são monitoradas. O Coaf escolhe as que considera mais suspeitas.


2. COMO OPERAM DOLEIROS


Botelho explica que empresas e pessoas que lavam dinheiro têm uma rede de laranjas para movimentar continuamente quantias sem chamar atenção de autoridades. Por isso doleiros e operadores são importantes para o crime, por serem capazes de levantar grandes quantias de dinheiro para pagamentos ilícitos.


3. COMO SE LEVANTA R$ 51 MILHÕES


Mas mesmo pensando em saques próximos a R$ 100 mil é difícil imaginar como se chega a R$ 51 milhões - seriam necessários 510 saques desse porte para atingir o valor. Pelo histórico de investigações de lavagem de dinheiro no Brasil, Botelho diz acreditar que dificilmente os R$ 51 milhões são resultado de um pagamento apenas. Para ele, o apartamento era um caixa onde era guardado dinheiro de várias operações.


4. TER R$ 51 MILHÕES EM DINHEIRO NÃO É CRIME, MAS…


Botelho diz que Geddel, se assumir a propriedade do dinheiro, não será automaticamente considerado culpado. O dono dos R$ 51 milhões, seja quem for, pode tentar justificar a origem do dinheiro. Caso consiga comprovar uma movimentação recente que justifique o montante, não há crime. No entanto, Botelho diz que é difícil pensar em transações dessa escala feitas em dinheiro vivo. Caso a origem não seja comprovada, o primeiro crime presente é por ocultação de valores.


 


Outros 3 casos simbólicos


1. O DINHEIRO DA LUNUS


Roseana Sarney era governadora do Maranhão e nome favorito na sucessão presidencial de 2002 quando, em março daquele ano, uma apreensão mudou o cenário político. A Polícia Federal fez uma operação em uma empresa que a filha do ex-presidente José Sarney tinha com o marido, Jorge Murad.


Na sede da construtora Lunus, os policiais encontraram R$ 1,3 milhão em dinheiro vivo. As imagens foram parar nos jornais e telejornais. Roseana se defendeu dizendo que guardar dinheiro na empresa não era crime e que era vítima de uma ação política para diminuir suas chances na eleição presidencial.


Segundo a então governadora, a empresa foi vítima de um grampo ilegal e o autor da interceptação telefônica teria informado a Polícia Federal sobre quando comparecer à empresa e encontrar dinheiro.


Pai de Roseana, José Sarney chegou a culpar, nos bastidores, o governo Fernando Henrique Cardoso e o PSDB, que lançaria mais tarde a candidatura de José Serra ao Planalto. Roseana não disputou a eleição, e seu partido, o então PFL e atual DEM, apoiou a candidatura de Serra, derrotada pelo petista Luiz Inácio Lula da Silva no 2º turno.


2. DÓLARES NA CUECA


Em 2005, o governo Lula já enfrentava problemas com o mensalão quando José Adalberto Vieira foi preso ao tentar embarcar para Fortaleza com dinheiro escondido. Vieira, que era assessor do então deputado estadual José Guimarães, tinha US$ 100 mil na cueca e R$ 209 mil em uma maleta.


O valor não era alto, mas o episódio do dinheiro na cueca se tornou simbólico. O caso culminou no afastamento do deputado José Genoino, irmão de Guimarães, da presidência do PT e aprofundou os problemas do partido em meio à mais grave crise política do governo Lula. Em 2012, o Superior Tribunal de Justiça livrou Guimarães de envolvimento no episódio.


3. DOSSIÊ DOS ALOPRADOS


Faltando pouco mais de duas semanas para a eleição de 2006, dois integrantes do PT foram presos em um hotel em São Paulo com R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo. Valdebran Padilha, empresário e ex-tesoureiro do PT em Mato Grosso, e Gedimar Passos, ex-agente da PF e suposto advogado do PT, tentavam comprar um dossiê contra o então candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra.


Quem vendia o dossiê era Darci Vedoin, dono da empresa pivô de um esquema de corrupção no Ministério da Saúde, comandado por Serra até 2002. O dossiê era falso e, quando o caso veio à tona, o então candidato à reeleição presidencial Luiz Inácio Lula da Silva chamou os petistas de "aloprados". Lula ganhou a eleição no 2º turno.


 



NEXO
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/09/06/Apreens%C3%B5es-de-dinheiro-vivo-como-%C3%A9-poss%C3%ADvel-juntar-tantas-notas