AML Consulting - A importância da mídia nas ações de prevenção e combate ao crime de lavagem de dinheiro

A importância da mídia nas ações de prevenção e combate ao crime de lavagem de dinheiro


Em conversa com O TEMPO, um dos principais porta-vozes da força-tarefa da Lava Jato no Ministério Público reconhece que a operação está sob ataque da classe política, pede apoio da população, mas afirma que o trabalho vai continuar, doa a quem doer

A Lava Jato sofreu uma sequência de derrotas no Supremo. O famoso “acordão” chegou ao STF?


Eu vejo que o ministro Edson Fachin está seguindo a tendência do ministro Teori (Zavascki) no tempo em que era vivo. Não vou dizer que concordemos, mas é uma decisão que está dentro dos limites da compreensão. Em relação a outros fatos, creio que a Lava Jato sempre esteve ameaçada. Diariamente, estamos lidando com circunstâncias, com ataques de toda espécie, seja pela mídia, pelas redes sociais, seja no próprio Judiciário. É natural que isso aconteça. Mas não vamos deixar de atuar. Vamos reconhecer as derrotas que nos são impostas e vamos lutar para que tudo isso mude. Podem ficar tranquilos, que a Lava Jato ainda tem muito caminho pela frente. Não estamos nos sentindo ameaçados, apenas vendo uma reação normal de um sistema político que está sendo investigado.


Como vê a conduta do ministro Gilmar Mendes no STF? Acha que ele tem sido um dos protagonistas dos ataques à Lava Jato?


Creio que o ministro tinha uma posição anterior a favor das investigações, quando elas estavam atingido o governo do PT. E tivemos uma mudança surpreendente após a queda da presidente Dilma, porque os fatos continuam sendo os mesmos: corrupção no sistema político brasileiro. Eu não vejo o porquê de mudarmos a forma pela qual entendemos o sentido de crime. Entretanto, ele mudou esse entendimento a partir desse momento e tem se posicionado francamente contrário à Lava Jato. Cada qual que responda pelos seus motivos. Vamos continuar na nossa compreensão e sentimos que temos o respaldo da maioria do Supremo.


O que a volta de Aécio Neves ao Senado, que tem uma estreita ligação com o ministro Gilmar, pode significar para as investigações?


O problema é o uso da circunstância parlamentar para fomentar atitudes contra a investigação. Temos receio de que, até a próxima eleição, tenhamos a aprovação, por exemplo, de uma lei de anistia. Muitos desses deputados e senadores podem não vir a ser reeleitos e eles devem estar preocupados com o seu futuro, de serem julgados no primeiro grau, sem foro privilegiado. Creio que temos de nos preocupar e acompanhar a movimentação da Câmara e do Senado, inclusive do senador Aécio – não especialmente dele, mas também dele –, no sentido de que não se aprove nenhuma tentativa de anistia, porque isso ofenderia o sentimento de justiça dos brasileiros.


A subprocuradora Raquel Dodge sugeriu projeto que limitava o número de procuradores cedidos a outras unidades do Ministério Público envolvidas em investigações especiais, caso da Lava Jato. A partir de setembro, Raquel assume o controle da PGR. Isso pode prejudicar a operação?


Não, porque ela esteve aqui enquanto candidata e explicou que esse entendimento não atinge forças-tarefas. Ele atinge muito mais os grupos de trabalho em atuação na própria Procuradoria Geral da República. Então, esse entendimento exclui a continuidade dos atuais membros da Lava Jato. Creio que devemos julgá-la a partir dos fatos, e não de hipóteses. Ela tem se colocado bastante forte, e não vejo nenhum problema com a futura procuradora geral.


Se pudermos traduzir a Lava Jato em uma porcentagem, como ela está hoje?


Depende do que você chama “a Lava Jato”. Se for a Lava Jato enquanto força-tarefa em Curitiba, eu acho que já estamos nos 70% das investigações realizadas. Agora, se você pensar a Lava Jato como algo nacional que está crescendo, como vemos em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Rio Grande do Norte, realmente ainda tem muito caminho a seguir.


Fazendo um paralelo com a operação Mãos Limpas, que chegou ao fim depois de pequenas derrotas na Itália: esse pode ser o destino da Lava Jato?


Sempre pode. Não podemos descuidar de acompanhar o Congresso Nacional, as movimentações, porque a qualquer momento pode ser aprovada uma lei de anistia, que simplesmente signifique o fim das investigações. As investigações estão sempre correndo risco, e o risco maior hoje se encontra no Congresso Nacional, nas atitudes que o Congresso vai tomar em relação à Lava Jato e aos crimes de corrupção. Nossa preocupação é sempre manter a população atenta aos riscos que a Lava Jato corre.


A Lava Jato era unânime enquanto as investigações atingiam o PT. Agora que chegaram ao PMDB e ao PSDB, as pressões aumentaram. Como avalia isso?


Avalio como uma polarização que existe hoje em todos os sistemas políticos. Muitas pessoas estavam enganadas sobre a Lava Jato. Elas acreditavam que era uma investigação partidária, mas é uma investigação sobre corrupção. Corrupção não tem cara e não tem partido, quem cometeu que responda por ela. Claro que, quando começou, a Lava Jato atingiu mais fortemente os últimos 13 anos do PT. Mesmo porque, ela começou com o diretor nomeado pelo ex-presidente Lula. Então, essa sensação gerou na população um apoio a Lava Jato que, na verdade, era uma ojeriza ao governo que estava vigente. Infelizmente, essas pessoas não perceberam que a corrupção vai além desse partido. É claro que essa polarização faz com que a Lava Jato perca apoio, mas temos de ser coerentes.


Por que a população não está nas ruas, já que a denúncia contra Temer é grave?


Nunca buscamos, nem no passado, nem agora, que a população fosse às ruas. É um direito da população, mas, normalmente, nas ruas, não são manifestações espontâneas, são organizadas por grupos. No passado foi assim, por grupos como MBL, Vem pra Rua e outros. Agora, essas organizações estão divididas e não sabem o que fazer, se apoiam o próprio governo Temer. E a população não se organiza por si mesma. Então, fica muito difícil, porque o MP não pode organizar, nem tem nada a ver com manifestações de rua. Essa polarização está impedindo as pessoas que apoiavam, que iam de amarelo, a não ir, porque há pessoas de vermelho que vão para rua. Infelizmente, o brasileiro vive uma polarização infeliz na política.


O senhor tem usado bastante as redes sociais.


Eu passei a usar por dois motivos: primeiro, porque houve uma perda de espaço na mídia tradicional, que passou a defender o atual governo, implicado em atos de corrupção. Segundo, porque precisávamos dizer o que sempre dissemos, que corrupção não tem cara e não tem partido, ela pode acontecer em qualquer lugar. E, se ela foi revelada no governo do PMDB ou então envolvendo o PSDB, como no caso do senador Aécio, temos de apoiar essas investigações, as denúncias e os pedidos de prisão. Para nós, a única polarização que existe é entre aqueles que querem combater a corrupção e aqueles que querem que ela seja anistiada. Não queremos que prevaleçam ideias do tipo “rouba, mas faz”, “se for contra o PT eu vou apoiar, mesmo que seja corrupto”, para nós isso é absurdo.


E como encara as críticas de que estaria sendo midiático? O próprio Gilmar Mendes já fez críticas nesse sentido.


Eu não entendo isso, porque o próprio Gilmar comparece à mídia muito mais que nós – e olha que os juízes têm uma restrição muito maior, porque o Ministério Público é parte. Ele tem um interesse a defender, que no nosso caso é o combate à corrupção, são os crimes de lavagem de dinheiro, crimes financeiros e outros. Mas vamos à imprensa defender os nossos processos, os nossos pontos de vista. Agora, um juiz não pode se manifestar sobre assuntos que podem vir a ser apresentados a ele. Entretanto, ele aparece muito mais que nós na mídia, e eu acho que essa crítica é absurda. O Ministério Público deve esclarecer à população as denúncias que faz. Eu não entendo por que as pessoas desejam o MP calado.



O Tempo:
http://www.otempo.com.br/capa/pol%C3%ADtica/a-opera%C3%A7%C3%A3o-lava-jato-ainda-tem-muito-caminho-pela-a-frente-1.1495187

Veja também